O Brasil não é nuclear


Marcos de Paula/Agência Estado - 
Ambientalistas protestam contra usina nuclear em Angra dos Reis (RJ) | 



O acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, consequência dos terremotos que atingiram o país no mês passado, fez o mundo reagir contra esse modelo de geração de energia, mas não o suficiente para que o Brasil desistisse da construção de Angra 3. Ela será a terceira usina a fazer parte do Centro Nuclear Almirante Álvaro Alberto, localizado na praia de Itaorna, em Angra dos Reis (RJ). A construção foi licenciada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) em maio do ano passado e é baseada no modelo de Angra 2. A perspectiva é que o novo reator gere energia suficiente para abastecer um terço do estado do Rio de Janeiro. Ambientalistas brasileiros e de todo o mundo lutam contra a obra, e os moradores da região também demonstram apreensão. Mas o Ministério de Minas e Energia não dá sinais de que vá desistir da construção.

“A geração por meio nuclear pode ser substituída por outros meios limpos e renováveis, como a eólica e a solar, com impactos ambientais menores. Vemos a Europa recorrendo a outros modelos de geração de energia e o Brasil parece ir na contramão. A energia hidrelétrica e a proveniente da queima de biocombustíveis poderiam servir de exemplo”, defende Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energia do Greenpeace. “O Brasil não é nuclear. É um país solar e deve aproveitar todas as formas de energia natural ao invés de investir nessa atividade cara e que ainda pode custar vidas humanas”, aponta a bióloga Miriam Reis, da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (Sapê).

Um dos problemas apontados por especialistas é a geração de lixo radioativo e o tempo que ele leva para se degradar. “Parte deste material se degrada em segundos, mas tem uma parte que pode demorar bilhões de anos para perder completamente o efeito radioativo”, explica o físico nuclear Rogério Gomes, presidente da Associação dos Fiscais de Radioproteção e Segurança Nuclear (Afen). “As ações de gerência de rejeitos nucleares atendem às recomendações internacionais e são similares às dos países avançados. Hoje, o principal foco destas ações é desenvolver projetos de depósitos finais de lixo nuclear e também um depósito intermediário de longo tempo (centenas de anos) para os elementos combustíveis usados.

Essas ações vêm sendo discutidas desde 2008”, afirma o físico Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Atualmente, o Brasil só tem depósitos provisórios para os resíduos.

As críticas não param por aí. Para Gomes, da AFEN, os moradores de Angra dos Reis correm riscos, já que Angra 1 e 2 foram construídas antes de acidentes nucleares ocorridos no final da década de 70 e começo de 80 e que levaram a novas normas para usinas nucleares. “A probabilidade de acontecer um acidente em Angra é muito baixa, mas ela existe. O que pedimos é uma nova avaliação de vulnerabilidade e adequação, se necessário, para garantir a segurança dos moradores”, defende Gomes. Outro problema é o chamado Plano de Emergência, documento que regula as ações que devem ser tomadas em caso de acidente.

“Esse documento foi escrito em uma época em que estávamos na corrida nuclear contra a Argentina. Ele contempla o programa nuclear brasileiro, e não beneficia a população”, aponta.
Administradora de Angra 1 e 2, a Eletrobras Eletronuclear, empresa estatal que monopoliza a construção de usinas no País, diz que as usinas respeitam todos os padrões de segurança e que a população não corre riscos. “Os reatores estão atualizados com normas internacionais e a usina é um exemplo de ergonomia e instrumentação, com painéis de operação modernos.

Nossos operadores passam até 6 anos em treinamento. Dispomos de geradores à diesel, caso falte energia. E a Comissão Nacional de Energia Nuclear fiscaliza regularmente nossas instalações e nosso trabalho”, garante José Manuel Diaz Francisco, coordenador de comunicação e segurança da Eletronuclear. Quanto ao Plano de Emergência, órgãos governamentais afirmam que ele vem sendo revisto. “A gerência do Plano de Emergência fora das usinas cabe ao Sistema de Proteção ao Programa Nuclear (SIPRON), que deve coordenar o CNEN, a Defesa Civil, os Bombeiros e a Prefeitura durante as ações.

Pretendemos, a partir das lições aprendidas em Fukushima, verificar as ações do Plano que devem ser revistas, mas para isso é conveniente esperar por mais dados concretos do que aconteceu no Japão”, esclarece Odair Dias Gonçalves.

Alarme de emergência 

Um susto recente preocupou ainda mais quem mora na região. Na manhã de 26 de março, os moradores da praia Vermelha e da Vila Histórica de Mambucaba, vizinhos à usina, foram acordados pelo alarme de emergência, que indicava possível falha nos reatores. Eles se dirigiram ao ponto combinado para estes casos e, ao chegarem lá, foram avisados de que fora um engano. “O episódio serviu para demonstrar o despreparo geral. A população não sabia como agir e os técnicos simplesmente ignoraram as perguntas. Só alguns dias depois a Eletronuclear enviou um comunicado explicando a falha no alerta”, rememora Miriam Reis. Ela diz que a população se sente insegura desde os episódios em Fukushima.

Diaz Francisco, da Eletronuclear, diz que exercícios de evacuação são feitos nos anos ímpares, e que participa da ação quem estiver disposto. “Distribuímos 60 mil calendários para a população que mora em um raio de 5 mil quilômetros com instruções do Plano de Emergência. Divulgamos este dia massivamente e, em anos pares, fazemos o teste simulado. Não negamos informação a ninguém”, diz.

Para o engenheiro nuclear Rubens Teixeira, não existe motivo para alarme. “Os sistemas de seguranças são muito bem montados e se sobrepõem. Ou seja, eles vão desligando em cadeia. Além disso, os técnicos moram lá com suas famílias, o que é um bom indício de que não há perigo eminente. E nenhum sistema está imune a acidentes. Podem acontecer problemas em hidrelétricas ou termoelétricas”, compara.

Informações da Folha Universal


Vídeo: Ativistas do Greenpeace pedem a interrupção das obras de Angra 3 no RJ


Em carta endereçada ao Ministério Público de Angra dos Reis (RJ) os ativistas do Greenpeace pediram nesta terça-feira (15) a interrupção das obras de Angra 3 e a desativação das outras duas unidades da usina. Com receio de que crises como a do Japão aconteçam em território brasileiro, para a organização, o melhor plano de emergência contra a ameaça nuclear é abandonar de vez este modelo de geração de energia.


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