ACELINO FREITAS DÁ ENTREVISTA AO BAHIA NOTÍCIAS

 Fotos: Tiago Melo/BN

“Encontrei o boxe como forma de sair da realidade do bairro onde eu morava.” 
Por Evilásio Júnior 

Bahia Notícias – Você saiu agora do “baba”, me conte como é esse projeto Masters da Bola.
 
Acelino Freitas – O Bismarck tem essa facilidade de reunir esses ex-jogadores, como Emo, Hugo, Bobô, Sapatão, Dico Maradona, e outros atletas. Tem uma galera boa jogando bola e é ótima essa integração, porque eles ficam muito esquecidos e aqui faz com que eles sejam lembrados. Muita gente vem assistir esse futebol. 
 
BN – Você sempre foi atleta e quando passou para a política foi na área de esportes. Pretende focar o seu mandato de deputado federal também no esporte?
 
AF – Eu sou a prova de que o esporte pode mudar a vida do ser humano. Eu sou fruto do trabalho social, porque quando procurei o esporte, o boxe, não foi só porque na minha família tinha lutador de boxe, mas porque eu sentia que faltava algo para ocupar o meu tempo. Só vivia na rua, menino da Baixa de Quintas, e passei a me apaixonar pelo boxe quando vi que seria uma válvula de escape para mim. Meus amigos fumavam e cheiravam, eu via assassinato no meu bairro, e encontrei o boxe como forma de sair da realidade do bairro onde eu morava. Então, eu ficava mais tempo na academia treinando e correndo do que até no próprio bairro. Mas, realmente eu me programei sair candidato porque teremos Olimpíada daqui a dois anos, apesar de que não é no Brasil (Londres, Inglaterra), mas temos que preparar os atletas e dar uma boa condição de treinamento para que possam trazer medalhas. Tentar fazer projetos a longo prazo para conseguir um maior número de medalhas nos jogos de 2016 (Rio de Janeiro), e eu acho que é agora que os projetos têm que começar.   
 
BN – E a Bahia terá ainda a Copa do Mundo de 2014 e há um déficit do esporte baiano em relação a outros lugares, mesmo do Brasil. Basta ver a quantidade de atletas que vão treinar fora, como aconteceu com você mesmo. O que pretende fazer, particularmente para a Bahia, para tentar desenvolver o esporte no estado?
 
AF – É verdade. Eu sempre falo que fazer esporte é muito barato. Vou dar um exemplo. Você pega uma bola, que custa R$ 40, e bota 22 crianças para jogar. É melhor estar correndo atrás dela do que da gente na rua. É muito fácil você pegar um colete, que custa R$ 5, e distribuir. É fácil fazer uma escolinha, é fácil implantar núcleos. Eu trabalhei em uma secretaria onde o que procuravam era bola, colete e padrão (uniforme). A necessidade não é o dinheiro. O cara não quer ser beneficiado porque será remunerado. São materiais baratos. Luvas de boxe, calças de capoeira, bola de futebol, são para os esportes que as pessoas mais procuram para ter um meio de ocupação e não é difícil fazer. O meu trabalho será voltado ao esporte, não só para preparar para um nível profissional, mas como inclusão social. A partir daí você tira muitos campeões.
 

“Eu não sei se, faltando dois anos, JH vai fazer (reativar a Secretaria dos Esportes). Nem sei se com quatro, com oito, quanto mais dois.”
 
BN – A cidade não tem estrutura para abrigar competições olímpicas. Você pretende fazer alguma coisa nesse sentido?
 
AF – Salvador é a terceira maior capital do país e não tem um centro olímpico. Você pode pegar Pituaçu, que tem área suficiente, e pode fazer a pista de atletismo, pode colocar o centro de judô, de boxe, de ginástica olímpica. Tudo ali você pode concentrar em um lugar só. É isso que eu vou lutar, para ter um centro olímpico. Ali é centro de tudo. Você vem de qualquer lugar e chega perto. Não está tão longe. Estão querendo fazer em Cajazeiras. Eu sei que é o bairro mais populoso, mas se for em Cajazeiras só vai atender ao pessoal de Cajazeiras. Se é o bairro mais populoso da Bahia, por que quem mora na Baixa de Quintas teria que ir para lá? Então, eu acho que tem que ser ‘centrão’ mesmo, para que as pessoas possam aproveitar. Eu lutei tanto para fazer um trabalho legal nos Barris, onde tem a pista de skate. Quando eu fui secretário eu lutei tanto para terminar aquela pista. Ali seria um lugar excelente para colocar um centro olímpico.
 
BN – Você veio de uma infância pobre, na Baixa de Quintas. Realiza alguma ação lá?
 
AF – Eu faço um trabalho social no Arraial do Retiro. Na verdade, a minha vontade era montar na Baixa de Quintas, mas como o bairro está muito escasso de espaço, eu comecei há quatro anos no Arraial, que é uma comunidade muito carente, que tem pessoas em situação de risco. E o mais legal nesse trabalho é que as mães vão lá e agradecem porque o filho mudou na escola, mudou o comportamento, era muito agressivo e depois do boxe deu uma “segurada”. O trabalho social tem que continuar, independentemente da política. Agora, como estou perto de ministérios, vou tentar trazer muitos recursos aqui para a Bahia e trabalhar muito essa parte. Eu digo que sou um cara muito felizardo. Eu sou feliz porque a época em que entrei na política é uma época que tem muito esporte no Brasil. Além da Olimpíada e da Copa do Mundo, tem muita luta crescendo, o Vale Tudo principalmente, o Ultimate Fighting é recorde de audiência, as regras mudaram no boxe. Então, você vê a dificuldade de ter um patrocínio para um negócio desses. Muitas vezes, o patrocinador não entende que o cara vai viver daquilo que ele vai ajudar, não vê o lado social. Só vê o lado da marca. Eu mesmo perdi muito patrocínio porque as pessoas diziam que não queriam colocar a marca envolvida com luta, com agressão. Eu perdi muitos patrocínios, e até alguns comerciais por isso. 
 
BN – A Secretaria Municipal do Esporte foi desativada no segundo mandato de João Henrique. Você acha que essa pasta tinha que ser reativada?
 
AF – Se fizesse o orçamento prometido para ela voltar, eu acho que seria uma boa secretaria. Mas eu não sei se, faltando dois anos, João Henrique vai fazer. Nem sei se com quatro, com oito, quanto mais dois (risos). Eu acho que não. Ele tirou a secretaria, que era um órgão muito bom, mas, apesar de ser uma secretaria pequena, com orçamento pequeno, deu para fazer muita coisa, ajudar muitas crianças. Cadastrei mais de 100 associações para fazer o trabalho esportivo, mas infelizmente o prefeito não entendeu o esporte como meio de transformação social. Se ele entendesse, teria sido muito bom para a gente. 
 

“Se (o metrô) fosse de Paripe até Lauro de Freitas valia até a pena (por R$ 12), mas seis quilômetros não dá. (...) Aí eu prefiro ir correndo.”
 
 
BN – Você teve muita dificuldade na secretaria?
 
AF – Muita. Eu não tinha orçamento. Eu pegava o meu salário todo e gastava com material para ajudar. 
 
BN – Essa crise financeira que a prefeitura de Salvador enfrenta, você acha que é questão de ingerência, você que esteve lá dentro, ou há algum outro tipo de problema internamente que a sociedade não sabe?
 
AF – É uma prefeitura grande, né? Vamos esperar entrar o IPTU para ver. Mas eu acho que é tão fácil trabalhar Salvador. Não é complicado. Você tem pessoas boas. O doutor Euvaldo Jorge, Tucunaré, que eu conheço, me ajudou muito, o próprio Flávio (Matos), que trabalhou na Fazenda, o Fábio (Mota) também. Teve gente boa que trabalhou, mas infelizmente esse negócio de partido é complicado.
 
BN – Desses aí que você citou, ninguém ficou como secretário...
 
AF – Ninguém. É verdade. E eram pessoas boas. Não sei o que aconteceu de um tempo para cá, porque os quatro anos iniciais de João foram razoáveis. A gente não vai dizer que foram bons, porque não foram, mas também não foram ruins. Mas de um ano para cá começou a dar problema, não sei se é porque já está perto de sair e desestimulou um pouquinho, mas eu acredito que já teve muita coisa boa. Eu acho que ele vai sair realmente de cabeça erguida quando esse metrô, mesmo sendo um percurso pequeno, estiver funcionando. Se nesses dois anos ele conseguir fazer isso, esse trajetozinho, que é o menor metrô do mundo, mas que pelo menos saia, ele sai de cabeça erguida. Mas aí tem um problema para administrar...
 
BN – A tarifa hoje estaria em R$ 12, o que é impraticável para a população...
 
AF – Se fosse de Paripe até Lauro de Freitas valia até a pena, mas seis quilômetros não dá. Dois reais por quilômetro. Aí eu prefiro ir correndo (risos).
 

“Pelo que eu estou vendo, pelo cenário aí, não sei a forma que o Supremo vai enxergar isso, mas que vai mover com o Brasil todo, isso vai.”
 
BN – Você falou da questão de partido e está no PRB. Você tem alguma ligação com a Igreja Universal?
 
AF – A minha maior referência foi o José Alencar (vice-presidente da República do governo Lula). Um grande empresário, um cara que luta pela vida. O Bispo Marinho também (deputado federal). Nunca vi essas pessoas ter envolvimento em nenhum escândalo, nem o próprio partido. Aí eu disse, ‘olha, eu vou entrar nesse partido, que é um partido pequeno que está crescendo’. Mas a minha maior referência mesmo foi o José Alencar.
 
BN – Mas você não tem vínculo com a Igreja Universal?
 
AF – Não. Até porque, eu sou evangélico também, mas sou da Igreja Batista do Caminho das Árvores. 
 
BN – Agora, essa aliança do PRB com o PP pode te causar um problema, já que o Supremo Tribunal Federal está para analisar uma ação que pode determinar que o suplente a ocupar a vaga seja do mesmo partido que o titular e não da mesma coligação. 
 
AF – Mas aí vai mudar o Brasil todo. Vai ter briga de suplente ‘pra caramba’. Pelo que eu estou vendo, pelo cenário aí, não sei a forma que o Supremo vai enxergar isso, mas que vai mover com o Brasil todo, isso vai. A questão que teve em Roraima é totalmente diferente do que eles querem fazer nos demais casos. Agora, eu não estou preocupado com isso. Estou com tudo pronto e já vou começar trabalhando. Estou preocupado em fazer um bom mandato e escrever meu nome na política. Eu quero ter um projeto político. Graças a Deus, eu não tenho a política como meio de vida. Eu tenho um bom salário. Tudo o que eu ganhei no boxe eu plantei e hoje estou colhendo. Vivo bem, com meus imóveis, com meus investimentos. Então, a política para mim é realmente para eu fazer uma carreira política bem sucedida.
 

“O Zé Eduardo me deu um nocaute que eu não esperava, até porque foi um cara que eu dei oportunidade.”
 
BN – Vai ser muito difícil abandonar a feijoada da mamãe ou você vai viver na ponte Brasília-Salvador?
 
AF – Eu tenho que ficar na ponte porque tenho muita gente para ajudar aqui, mas tenho que estar em Brasília porque há muita lei para votar, observar o que a gente pode fazer para melhorar. Eu sei que um voto meu pode mudar a história do país. Eu tenho que estar atento a essas coisas, mas eu tenho que lembrar que sou deputado federal pela Bahia. Eu tenho que atender muita gente carente, lugares de alto risco, pessoas que realmente precisam até mesmo de uma palavra, de um incentivo. Quantas vezes eu estava em um round que apanhei ‘pra caramba’, chegava no corner e meu treinador chegava, dava um solavanco e eu chegava lá e virava a luta?
 
BN – A gente sabe que, ao longo da sua carreira, nunca houve nada que desabonasse a sua conduta, mas houve um episódio, depois que você abandonou os ringues, em que acusaram você de ter participado do assassinato de um suposto namorado de uma sobrinha sua. Tudo já foi resolvido?
 
AF – Graças a Deus. Aquilo foi o maior nocaute que eu levei na vida, porque você ser acusado de uma coisa que você não fez, só quem passa é que sabe. Ás vezes as pessoas falam que perderam um parente e eu digo, ‘olha, eu perdi meu pai parece que tem quatro meses e já tem oito anos’. Só quem perde é quem sabe. Então, eu sei o que foi que eu passei. Mas Deus é muito justo comigo. Só que, infelizmente, a mídia pegou muito pesado. O Zé Eduardo me deu um nocaute que eu não esperava, até porque foi um cara que eu dei oportunidade. Acho que ele, sabendo da minha conduta, trabalhou cinco anos como meu assessor de imprensa, não podia ter feito aquilo. E ele foi o cara que jogou o veneno. Mas é isso aí. Na nossa vida a gente tem que aprender e eu aprendi muito com isso. Eu não deixo de ajudar minha família. Sempre vou ajudar, mas de uma maneira mais longe agora, porque você tenta ajudar e termina prejudicado, como eu saí. Perdi comercial, perdi palestra, já tinha um contrato certo para assinar que deu errado.
 
BN – Você acha que perdeu voto também por causa disso? Podia ter sido eleito direto?
 
AF – Também. Tinha gente que não queria fechar comigo. Uma vez eu estava ali no viaduto do Iguatemi distribuindo santinhos e ouvi uma pessoa dizer: ‘não vou votar nesse assassino nada’, mas não viu que era eu. Ela passou e eu fiquei de cabeça baixa e tudo. Muita gente que trabalhou para mim também, até a minha mãe mesmo, comentava. Isso com certeza empatou muito. Quando a imprensa soltou a notícia foi de uma maneira muito pesada, mas quando foi provada a minha inocência pouca coisa saiu e as pessoas não ficaram sabendo. Cara, isso para mim foi terrível. Eu já tinha duas palestras, cada uma de R$ 45 mil, para fazer em São Paulo e Natal e depois me ligaram para dizer que eu não iria mais. Fora outras coisas que eu não sei se estavam por vir. Foi bom porque poderia ter acontecido até alguma coisa pior comigo. 
 
BN – Você teve medo?
 
AF – A coisa que eu tive mais medo com essa acusação foi eu estar em um lugar e ter alguém para querer descontar, até da própria família, sem eu saber quem era. Eu rodei a Bahia toda. Fiquei exposto. Alguém podia me acusar, me agredir ou fazer alguma coisa. Eu tinha medo. Tinha muito medo. A gente acha que lutador de boxe não tem medo de nada, mas eu tinha medo porque não sabia de onde vinha, não sabia quem era, o que era. Teve até um pessoal meu, com minha irmã, que foi fazer uma panfletagem na Boca do Rio e foi escarreirado. Diziam que eu matei gente. Foi muito complicado. Com certeza, me prejudicou muito na campanha.
 

 “Poxa, me deixa trabalhar, deixa acontecer. Se eu provar o contrário, você não vota mais em mim.”
 
BN – Seu golpe mais famoso era o direto de direita. Em quem você daria um direto de direita desse na política brasileira?
 
AF – Na corrupção. Eu não faria isso com ninguém porque não tenho raiva. Eu sou uma pessoa que nunca tive mágoa de ninguém. Se eu me aborrecer com você agora, tenha a certeza que daqui a pouco eu volto e peço desculpa. Então, eu sou desse tipo. Mas eu acho que a corrupção sujou muito a imagem do nosso país. Hoje você quer entrar para fazer um trabalho sério, mas as pessoas desconfiam: ‘Olha, eu vou votar em você, mas eu sei’. Poxa, me deixa trabalhar, deixa acontecer. Se eu provar o contrário, você não vota mais em mim. Isso só acontece porque as pessoas estão cansadas disso. Mas tenha certeza que eu vou fazer diferente.
 
BN – Pretende alçar voos mais altos na política?
 
AF – É sempre assim, né? Você quer ser vereador, daqui a pouco, deputado, prefeito, senador, governador. Eu quero ter uma carreira política, mas eu penso em primeiro aprender, enxergar como é a política no nosso estado, no nosso país, para depois ter coragem de sair para outra coisa. Hoje eu não tenho coragem. Como atleta eu tive poucas críticas. De eu dar um golpe errado e as pessoas criticarem porque dei um golpe errado. Ou por ter perdido uma luta. Mas, na política, a crítica é pesada.

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